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A crise de saúde e o bem-viver entre os yanomami: Desafios e estratégias comunitárias em tempos de emergência

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INTRODUÇÃO

Atualmente, segundo dados do governo, mais de 30,4 mil habitantes vivem no território indígena Yanomami, a maior reserva indígena do Brasil. A situação de saúde dessa população é alarmante, especialmente desde que, em 20 de janeiro de 2023, foi declarada Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional para enfrentar a desassistência sanitária das comunidades no território Yanomami. Entre os fatores críticos estão a invasão da Terra Indígena Yanomami pelo garimpo ilegal,

que tem gerado alta contaminação por mercúrio, afetando diretamente a saúde de crianças e mulheres e agravando o cenário de saúde pública. A exploração do garimpo, as queimadas e as mudanças climáticas interferem diretamente no conceito de Bem-Viver dessa população, que possui uma relação intrínseca com seu ecossistema. Os meios de subsistência dos Yanomami dependem da natureza, com atividades de pesca, agricultura e caça sendo essenciais para sua sobrevivência.

Além das consequências ambientais, a crise no Bem-Viver emergente entre os Yanomami reflete múltiplos fatores, incluindo deslocamentos forçados e perda de território. As práticas tradicionais de cuidado, fundamentais para a coesão social e o bem-estar da comunidade, estão sendo ameaçadas, resultando na presença constante de agentes externos e na interrupção da vida cotidiana tradicional.


MÉTODO

Para implementar ações de Saúde Mental e Apoio Psicossocial (SMAPS) neste contexto, formou-seuma equipe multidisciplinar composta por psicólogos, antropólogos, mediadores interculturais, promotores de saúde e agentes indígenas de saúde, além de líderes comunitários e xamãs locais. Essa colaboração entre diferentes atores permite uma visão abrangente do contexto, possibilitando o desenvolvimento de ações que respeitem e integrem o conceito de Bem-Viver Indígena. O principal ponto de partida para a implementação das ações foi o deslocamento do papel do psicólogo em território, visando superar a lógica biomédica que permeia o modelo ocidental de psicologia, frequentemente abordando os cuidados de forma individual e patologizante. Nossa meta foi construir um espaço de atuação que ressoe com a cosmologia e as práticas de cura do povo Yanomami. Para alcançar esse objetivo, foi fundamental partir do conhecimento do contexto e da criação de vínculos com as comunidades. Isso foi realizado por meio da Cartografia do Território, uma estratégia grupal que, através da participação ativa da comunidade, propõe a análise das necessidades de saúde explícitas e implícitas, além de buscar a compreensão de como as pessoas ocupam e interagem no território. A construção de relações de confiança com os atores comunitários ocorreu por meio de reuniões periódicas para planejamento, avaliação e implementação das ações de SMAPS. Ademais, o apoio antropológico desempenhou papel fundamental, atuando como base norteadora para a leitura social, permitindo a compreensão das noções culturais de corpo e saúde, das relações de parentesco, bem como dos rituais e cerimônias comunitárias do povo Yanomami.


RESULTADOS

A partir do conhecimento do território, foi possível redirecionar as ações de Saúde Mental e Apoio Psicossocial (SMAPS), com o objetivo de tecer redes de apoio comunitário, promover o cuidado coletivo e fortalecer os atores locais. As ações foram orientadas pelo acompanhamento de famílias que apresentavam sofrimento mental, resultando na realização de 333 consultas psicológicas 1 individuais e familiares em 2024. 2 Adicionalmente, foram conduzidos 154 grupos psicossociais

focados no fortalecimento comunitário e no desenvolvimento de estratégias de enfrentamento, com a participação de 2.044 pessoas. A metodologia que norteou essas ações considerou a linguagem e os conceitos que fazem sentido para a população Yanomami, os fatores organizadores da vida social Yanomami, tais como: relações de parentesco; relações comunitárias e intercomunitárias; rituais e cerimônias; sonhos; relação com a terra; e responsabilidades sociais. Além disso, foram identificadas

as formas de expressão do sofrimento mental trazidas pela comunidade, o que permitiu uma abordagem mais alinhada ao contexto de atuação. No nível comunitário e em articulação com o Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami e Yek'wana, foram alcançados diversos resultados, incluindo a criação do Núcleo Multidisciplinar na

CASAI-YY, a formação do Comitê Psicossocial em território e a elaboração de uma cartilha sobre o Uso Prejudicial de Álcool em conjunto com os homens Yanomami. Também houve o fortalecimento das capacidades locais, por meio do apoio técnico aos psicólogos do DSEI-YY, da apresentação de novas metodologias de atuação e do reconhecimento do trabalho do psicólogo pelas comunidades.


CONCLUSÃO

A consideração das realidades culturais e sociais é fundamental no desenvolvimento de ações em Saúde Mental e Apoio Psicossocial. Isso destaca a necessidade de promover o Bem-Viver entre os povos indígenas como um esforço conjunto, que requer a participação ativa da comunidade e a colaboração entre profissionais de diversas áreas. A atuação junto ao Povo Yanomami evidenciou os impactos sociais resultantes da invasão do território e das mudanças climáticas, ressaltando a

interdependência entre o ecossistema e o bem-estar das comunidades indígenas. Dessa forma, as experiências e aprendizados adquiridos durante esse processo podem servir como modelo para futuras ações em contextos semelhantes, contribuindo para a saúde e o bem-estar das populações indígenas

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Published Date
05-Nov-2024
Languages
Português